MATÉRIAS-PRIMAS - China aposta forte em toda a África PDF Imprimir e-mail

Nos subúrbios a norte de Luanda, uma enorme trincheira marca o início de um gigantesco processo de reconstrução pós-guerra. Uma equipa liderada pela China está a reconstruir a via férrea para Malange, cidade do Norte de Angola que serve de porta de passagem para o Leste, produtor de diamantes. O dinheiro chinês está ainda a financiar a reconstrução da via férrea de Benguela, a artéria que liga esta cidade do Sul ao coração da zona mais rica em minério do Sul da África.
O Eximbank, da China, aprovou, no ano passado, uma linha de crédito de dois mil milhões de dólares para financiar a reconstrução de escolas, hospitais, estradas e vias-férreas, bem como outras infra-estruturas. Os construtores chineses recuperaram recentemente o edifício do Ministério das Finanças, da época colonial, transformando-o
numa estrutura adequada a umpaís com aspirações a constituir-se como uma das mais importantes potências africanas.

Angola nunca realizou uma conferência internacional de doadores para a obtenção de fundos destinados às suas estradas, caminhos-de-ferro, pontes e edifícios destruídos pela guerra. A falta de um acordo com o Fundo Monetário Internacional, o qual vem levantando dúvidas quanto à gestão do país, terá impedido a obtenção dos biliões de dólares de que necessita para a reconstrução. No entanto, a China provou ser um verdadeiro parceiro negocial, onde outros têm hesitado. «Em termos práticos, os chineses estão a fazer aquilo que o Banco Mundial devia fazer», afirma Filomeno Vieira Lopes, economista na Sonangol, a companhia petrolífera do Estado.
 
A influência crescente de Pequim sobre Angola reflecte-se por todo o continente. A África produz, em abundância, os minerais de que a economia chinesa, em franco crescimento, tanto necessita, quer seja o cobre da Zâmbia, a platina do Zimbabué, ou o minério de ferro da África do Sul. Em Angola, a principal atracção é o petróleo. No ano passado, a Sinopec, a companhia petrolífera controlada pelo Estado chinês, comprou em «offshore» a Plataforma 18, e celebrou recentemente uma parceria com a Sonangol para gerir a Plataforma 03/05, anteriormente controlada pela Total.
 
A África funciona também como um mercado receptivo às exportações de produtos a baixo preço. Os comerciantes chineses, como classe, não temem as condições de intervenção, tantas vezes difíceis do continente africano. «Os chineses estabelecem contactos e, apesar de todos os problemas, investem», explica Vieira Lopes. Para a África, a China é um parceiro de bolsos fundos, com menos pruridos quanto à transparência financeira ou quanto a questões de governação do que o FMI ou as democracias do Hemisfério Norte.
 
Em Julho, no preciso momento em que era publicado um relatório do Conselho de Segurança a condenar o Governo de Robert Mugabe, o presidente do Zimbabué era festejado em Pequim como um velho amigo. A China constitui um importante parceiro de um Zimbabué sob a regência da política «pró-oriental» de Mugabe, uma resposta das relações conflituosas do seu país aos parceiros comerciais tradicionais.
 
Numa palavra, a China começa a flectir os músculos sobre África, tal como as superpotências da Guerra Fria fizeram anteriormente. No entanto, Angola parece saber manter uma certa distância em relação a Pequim. A Sonangol contratou recentemente a J.P. Morgan para a ajudar a clarificar as águas no que diz respeito a uma possível questão internacional de alianças. «O grande negócio é conseguir melhores taxas comerciais», comenta um diplomata conhecedor. «Eles não querem ficar presos à China; querem é constituir-se como uma unidade geradora, em total funcionamento».
 
COURRIER INTERNACIONAL 23, EDIÇÃO PORTUGUESA
 
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